sábado, 28 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Situação curiosa - Em Saldos


Desde que sou uma pessoa mais (in)formada passei a ser também muito mais observadora. Uma das maravilhas da tecnologia moderna é o belo do telemóvel e mais maravilhoso ainda é que alguns têm máquina fotográfica. Curiosamente, e ainda bem, é o meu caso. Estou sempre apetrechada com a "Máquina" e, agora, sempre que vejo uma situação irresistível, registo-a e partilho-a. Sinto-me nessa obrigação, que é que eu posso fazer?

No outro dia, aqui pelas ruas do cacém, registei uma coisa engraçada. Nada de especial. Mas pergunto-me porque é que não repararam no erro à primeira letra, ou se os senhores da loja são realmente os interessados em saber que a loja deles está com uma liquidação fantástica, porque os transeuntes, só com algum esforço é que conseguem ler a mensagem da montra, a não ser que usem o método do leonardo DaVinci de ler através de um espelho...

Homero em Shakespeare


No âmbito da disciplina de Cultura Clássica, tive de elaborar um trabalho comparativo sobre a inflencia que a época clássica exerceu nos séculos que se seguiram. Uma vez que tive 16 no trabalho (Bazófia!!) achei que poderia ser proveitoso partilhá-lo, já que tanta porcaria por aí há. (Não que seja o caso ;)




Homero: Poeta épico grego (Séc. VIII a.c.). É-lhe atribuída a autoria da “Ilíada” e da “Odisseia”, ao compilar e unificar grande número de tradições orais. Usando uma linguagem rica em imagens de grande plasticidade e de fecundas analogias, Homero construiu a obra cimeira do helenismo. Questiona-se ainda hoje a sua existência.

Escreve:

Ilíada: Poema épico de tradição oral grego, pelos antigos atribuído a Homero. Divide-se em vinte e quatro cantos.Tem por cenário o último ano da guerra de Tróia e como protagonista o ideal heróico personificado na figura do bravo guerreiro Aquiles.


E 2100 anos depois...


Shakespeare: Dramaturgo e poeta inglês renascentista de finais do século XVI . Amplamente considerado como o maior dramaturgo da língua inglesa e um dos mais influentes no mundo ocidental. Escreveu comédias, tragédias e tragicomédias. Aclamado pela corrente Romantica , marcou a sua época e todas as outras que se lhe seguiram. É também ponto de discussão a sua existência e a autoria das suas obras.

Escreve:

Troilo e Créssida: Uma das tragicomédias de Shakespeare. Divide-se em cinco actos. Datada do ano de 1609, conta-nos a história de um amor que tem como cenário a guerra de Tróia. Ao longo da peça, impera um tom entre comédia obscena e tragédia sombria.



Introdução e Contextualização

Várias são as influências da cultura e dos mitos gregos da antiguidade na sociedade contemporânea. Verificamos em várias áreas esta influência sem termos real consciência da sua existência. São raras as vezes em que paramos para pensar na origem de certas expressões como oriundas que são de mitos gregos, neste caso, consagrados por Homero. Vejamos casos mais concretos a nível linguístico. Utilizamos no nosso quotidiano expressões como “calcanhar de Aquiles”; “presente de grego” e o velho ditado de sabedoria popular “Não se pode agradar a gregos e troianos”. Mas não só na linguística identificamos esta particularidade. Mesmo na arquitectura continuamos a usar cânones típicamente gregos. As colunas dos templos e igrejas têm a sua origem na Grécia.

A antiguidade clássica, nomeadamente a vivida e narrada por Homero, inspirou também o mundo do cinema. O filme “Tróia”, de 2004 é disso o maior e mais conhecido exemplo.É significativa, portanto, a importância dos mitos e a extensão de tempo pela qual se perpetuaram. Continua a ser dicutível se Homero existiu realmente e se as obras que lhe são atribuídas são mesmo de sua autoria.

O facto de chegarem aos nossos dias as histórias e os mitos do século VIII a.c só pode significar que não se circunscreveram no espaço e no tempo a que pertenciam. Passaram por vários séculos, atravessaram várias idades e até milénios, sempre influenciando estudiosos e escritores que viram no mito uma boa fonte de histórias e enredos. Citando o professor Frederico Lourenço na sua introdução à Ilíada: “As civilizações passam, mas a cultura sobrevive... Cada novo leitor acrescenta mais uma etapa...”. Shakespeare não foi excepção. Talvez tenha sido, por outro lado, a regra. Se houve autor que “desconstruiu” e explorou os mitos e desenvolveu enredos à sua volta, esse autor foi, definitivamente, Shakespeare.

Nas páginas seguintes irá ser desenvolvido este tema confrontando a obra “Tróilo e Créssida”, de Shakespeare com a “Ilíada”, de Homero. Obras tão distantes temporalmente mas cujas histórias se complementam. Creio não ser exagerado afirmar que todas as obras do autor renascentista remontam, de uma maneira ou de outra, às histórias e mitos escritos por Homero.



Tróilo e Créssida – Apresentação da obra de Shakespeare

“Tróilo e Créssida” é uma das tragicomédias de Shakespeare, também apelidada de “comédia sombria”. Nesta obra o dramaturgo inglês conta-nos a história de amor do jovem Tróilo, filho de Príamo (rei de Tróia) e de Créssida, filha de Calcas, (sacerdote troiano e partidário dos gregos), sobrinha do alcoviteiro Pândaro. Um casal a quem poderíamos denominar de “anti-Romeu e Julieta”

A acção começa já a meio da guerra de Tróia. O autor optou por suprimir o início e as causas da guerra. O pano de fundo da obra é a corrupção, a partir de uma guerra iniciada pelo adultério de Helena e de Páris. A peça desenvolve-se num período de armistício e negociações hipócritas entre gregos e troianos que vemos que se vão visitando mutuamente enquanto discutem vaidades em vez de soluções para a paz.

Tróilo gosta de Créssida mas tem medo que o seu pai e o seu irmão Heitor descubram. A única maneira que tem de se aproximar de Créssida é através do seu tio alcoviteiro, que invariavelmente exalta a beleza da sobrinha, provocando ainda mais o jovem Tróilo. Créssida não dá parte fraca, mas quando está sozinha confessa também o seu amor pelo jovem. No meio deste clima de “romance proibido” desenvolve-se em paralelo a guerra de Tróia. Na peça de Shakespeare presenciamos a hipocrisia, a luxúria , a falsidade entre os chefes gregos e a sua falta de organização. Vemos isso mesmo na fala de Ulisses no primeiro acto, quando este diz: “As leis da disciplina têm sido desprezadas...”, ou seja, Tróia não permanece de pé por ser forte mas pela falta de união dos gregos. Mas nesta “estória” nem Heitor, o grande herói troiano, é poupado num elenco de personagens corruptos e fica muito distante dos seus aclamados prinípios, ou seja, os heróis homéricos são-nos mostrados numa vertente mais perversa. Aqulies, por exemplo, em “Tróilo e Créssida” não passa de um vaidoso que menospreza os demais generais e que além de não querer saber do exército, ainda se ri dos seus chefes (segundo a fala de Ulisses). A Ulisses são dadas falas de grande refelxão mas é-lhe atribuído uma conduta desprezível. Os troianos não apresentam melhor carácter. No fundo, sabem que Helena deve ser devolvida a Menelau, mas não o fazem por uma questão de honra, por isso a guerra se alastra há sete ou oito anos, com inúmeras mortes de ambos os lados.

Ao longo da obra, vamos criando expectactivas em relação a cada um dos personagens, mas logo o autor nos surpreende dando-lhes um carácter inesperado. Nunca pensaríamos, no início da peça que Créssida seria capaz de trair o seu amado Tróilo tão facilmente, depois de tantas juras de amor. O que é facto é que, no quinto e último acto esta se entrega ao chefe grego, Diomedes.

Todo este “pano de fundo” é-nos descrito por Tersites. É ele que nos ajuda a perceber as entrelinhas dos discursos e nos dá a real verdade de toda a história. Desmascara tudo e todos confrontando-os com as suas fraquezas.



Influências Homéricas no personagem Tersites em

“Tróilo e Créssida”


Tersites, personagem que vai ser abordado e estudado nas páginas seguintes, é pouco explorado por Homero, na “sua” Ilíada. O autor apenas menciona o nome de Tersites no canto II para demonstrar a mesquinhez do personagem grego e a maneira como consegue gerar a discórdia e lançar a confusão entre os chefes gregos. No entanto, foi evidente o suficiente para que Shakespeare, 2100 anos depois “pegasse” nele e o trabalhasse na sua obra.

Ao contrário de Homero, o autor inglês coloca Tersites ao longo de toda a peça

“ Tróilo e Créssida.” Com certeza que, no pouco protagonismo que este personagem assume na Ilíada, Shakespeare viu grande potencial humorístico e aproveitando o facto de não nos ser descrito muita coisa na obra de Homero, o autor dramático quis desenvolver à sua vontade as características psicológicas de Tersites e fazer dele o “Bobo da Corte”.

Chega-se até à conclusão que se apelida esta obra de “tragicomédia” devido às aparições e falas de Tersites. É ele quem dá o tom jocoso à peça.

No primeiro acto, Tersites não aparece. Shakespeare preferiu neste acto dar ênfase e apresentar a história de amor do casal romântico da peça juntamente com o alcoviteiro Pândaro e as suas desventuras. Mas essa ausência é logo suprimida no acto seguinte.

O segundo acto de “Tróilo e Créssida” começa com a entrada de Tersites e Ájax em cena, em pleno acampamento grego. Daqui se podem tirar várias conclusões. Assumimos logo que Tersites será um personagem importante no desenrolar da história, pois a seguir ao casal romântico da peça, é ele quem nos aparece imediatamente. Neste acto, logo na sua aparição, o personagem Tersites tem um diálogo com o chefe grego Ájax. Diálogo esse tão indecoroso e numa linguagem tão recorrente, que quase nos leva a esquecer que estamos perante um texto do erudito Shakespeare.

“Sim, bate, bate estúpido! Não tens mais miolos na cabeça que eu no cotovelo. Um burro pode dar-te lições, a ti, vil burro forte, que aqui só serves para amachucar troianos, mas que, qual escravo bárbaro, és comprado e vendido pelos que têm espírito. Se te pões a bater-me, principio pelos calcanhares a dizer quem és polegada por polegada, miserável sem entranhas”

Esta é uma das falas de Tersites para Ájax, na primeira cena do segundo acto. Não podemos deixar de achar graça a tamanha “honestidade” e falta de carácter. Falas como esta são recorrentes ao longo de toda a obra, não deixando ninguém escapar incólume.

Ainda neste mesmo acto vemos a mesma atitude do personagem para com Aquiles:

... “ a verdade é que uma grande parte do vosso espírito está também nos músculos, ou então há mentirosos. Boa presa vai fazer Heitor se vos puser os miolos no ar: tanto lhe valeria quebrar uma noz chocha sem miolo”

Tersites visa também o ancião e irrepreensível Nestor:

... “ e o velho Nestor, que já tinha os miolos bolorentos antes dos vossos avós terem unhas nos dedos dos pés...”

Na cena III deste “opulento” segundo acto vemos Tersites e os seus “sensatos silogismos” e deduções. Desta vez o seu alvo é Pátroclo e ele próprio :

“Agamémnon manda em Aquiles; Aquiles é meu amo; eu sou quem conhece a Pátroclo, e Pátroclo é um tolo”...

“Agamémnon é tolo; Aquiles é tolo; Tersites é tolo; e, como já disse antes, Pátroclo é tolo.”

“Agamémnon é tolo por querer mandar em Aquiles; Aquiles é tolo por deixar-se mandar de Agamémnon; Tersites é tolo por servir um tolo assim; e Pátroclo é positivamente tolo.”

A sua última frase neste segundo acto, que é marcado principalmente pela sua presença, deixa-nos com a certeza que estamos perante uma criatura vil e mesquinha:

“Mau herpes lhe venha à causa de tudo! E que a guerra e a putaria os confunda a todos!”

Tersites é, portanto, a voz que desmascara a personalidade dos intervenientes na acção e diz a verdade a todos e sobre todos os personagens, revelando as entrelinhas dos discursos dos personagens, ou seja, o que na realidade querem dizer. Talvez nem o próprio Homero se teria lembrado de atribuir tais características ao seu “pobre” personagem, mas atribuiu-lhe potencial suficiente para estarmos agora a falar dele.

O personagem em causa surge também no fim do terceiro acto, onde nos “brinda” com uma hilariante imitação de Ájax.

Não deixa de ser engraçado também reparar como os outros personagens ainda lhe dão crédito e “alinham” nas suas propostas e ideias.


No quarto acto Tersites não entra. Dá lugar novamente aos apaixonados Tróilo e à sua amada Créssida. É neste capítulo que presenciamos as juras de amor entre o casal e a troca de presentes para que um não se esquecesse do outro. No entanto, neste mesmo acto, Créssida é beijada por todos os chefes gregos a quem é entreguenão mostrando qualquer resistência.

No entanto, no quinto e último acto eis que surge novamente o “bobo” Tersites. Talvez não por acaso, surge novamente no início do acto final juntamente com Pátroclo e Aquiles, o “imbecil dos pés à cabeça” nas palavras de Tersites. É nestas cenas finais que assistimos finalmente a um relato do desenrolar da guerra de Tróia. É neste acto que Tróilo se vê traído e Tersites calunia quem ainda não tinha sido caluniado:

“Ali está Agamémnon, rapaz honesto e apreciador de boa caça, mas com menos miolos na cabeça que cera nos ouvidos...Quanto a seu irmão (...) em que forma senão a sua é que o espírito recheado de malícia repleta de espírito haviam de transformá-lo?! Num burri, não: já é burro e boi ao mesmo tempo. Num boi, não: já é boi e burro ao mesmo tempo. Não me importava ser cão, mula...ou arenque sem ovas; mas ser Menelau!...Até me revoltava contra o destino. Não me perguntem o que queria ser se não fosse Tersites...”

Também de Diomedes, Tersites tem algo a dizer. Afinal foi Diomedes que conseguiu que Créssida esquecesse Tróilo:

“Este Diomedes é um velhaco falso, um patife desleal...Tal como um cão que ladra de mais, é ele pródigo em palavras e promessas... Só se vê luxúria.” “Sempre guerras e luxúria: nada mais está na moda. Que um diabo em chamas os leve a todos.”

É Tersites quem repara que Diomedes traz o punho que Tróilo oferecera a Créssida, no momento em que ambos trocavam juras de amor. Tersites parece estar em toda a parte para nos dar conta da mesquinharia que assolava os que o rodeavam. Mas Tersites é-nos mostrado também como um cobarde que usa a sua eloquência e a sua habilidade com as palavras para nunca ter de entrar em guerra com alguém. No entanto quando se vê a salvo volta à sua “tarefa” de caluniar e de nos fazer sorrir. Na cena IV deste último acto Tersites é interpelado por Heitor:

“Heitor: Quem és tu, grego? Sentes-te capaz de lutar com Heitor? És homem de raça e de honra?

Tersites: Não, não! Sou um patife, um vil caluniador, um biltre asqueroso...

Heitor: Acredito em ti! Vive! (Heitor sai)

Tersites: Graças a Deus que me acreditaste. Mas que a peste te rebente o pescoço por me teres assustado!”

Exactamente a mesma coisa acontece quando este é interpelado por Margarélon, filho de Príamo:

“Margarélon: Vira-te para mim, escravo, e luta!

Tersites: Quem és tu?

Margarélon: Um filho bastardo de Príamo.

Tersites: Também eu sou bastardo. Adoro os bastardos: sou bastardo de nascimento, bastardo por educação, bastardo de alma...ilegítimo em tudo. Os ursos não se mordem uns aos outros: porque é que os bastarddos não hão-de fazer o mesmo?”

E assim, devido à sua habilidade com as palavras e com a sua cobardia, Tersites termina na peça são e salvo.

Pode-se dizer que para Homero o importante era enaltecer os feitos heróicos de alguns mortais. Para Shakespeare importava mais pegar num personagem volúvel e moldá-lo de maneira a que se consiga desmascarar esses heróis homéricos, porque todos têm as suas fraquezas. Tudo o que foi acima dito do personagem de Tersites contrapõe-se com todos os valores que um herói deve ter. Com as características que Shakespeare lhe atribuiu não é de estranhar não o vermos a combater nesta obra. O que nos leva a pensar que Shakespeare o usou como uma espécie de narrador que não poderia faltar para que percebessemos a realidade de cada situação.

Nesta obra temos frases brilhantes de heróis como Heitor, que nos revelam o que era realmente importante para estes homens que estavam na linha da frente:

“ Um homem que se preze, considera a honra muito mais preciosa do que a vida”

Esta seria uma frase impensável para Tersites. Para ele a vida tinha muito mais valor do que a honra, que tão importante era para os heróis homéricos. Apesar do pouco que Homero nos fala de Tersites também podemos afirmar que na “Ilíada” esta espécie de bobo disforme também não teria grande protagonismo ou uma vida muito longa se estivesse apetrechado de armas na guerra de Tróia.

Situações Diferenciais em Shakespeare

Se formos comparar no seu todo a obra “Tróilo e Créssida” com a “Ilíada” de Homero, verificamos que o autor inglês incrementa a sua peça com algumas situações com as quais não somos confrontados na peça do autor grego. Além de todas as características dos personagens que foram totalmente modificados pelo autor, Shakespeare “molda” a obra de Homero a seu “bel- prazer”. De facto, para atingir o seu objectivo de desmascarar a hipocrisia e a falta de escrúpulos que reinavam no século XVI/ XVII, Shakespeare acrescenta factos que o ajudam a fomentar as suas ideias, como por exemplo a personagem de Créssida. Não há nenhum registo de que Créssida* já “existisse” nos escritos de Homero. Supõe-se então que tenha sido Shakespeare que a introduziu na sua história para poder criar mais uma situação de adversidade além da própria guerra de Tróia e das suas causas.

Em “Tróilo e Créssida” o herói Tróilo é o protagonista, depreciando assim o verdadeiro herói da “Ilíada”, Aquiles. Chega-se mesmo à conclusão que nem o nome da personagem foi escolhido ao acaso. Associando Tróilo a Tróia, Shakespeare, e para que se gira um confronto, cria a personagem de Créssida que nos remete à Grécia como contraponto a Tróilo. Um é o oposto do que o outro representa quer em termos de princípios quer em termos de ideais. Talvez Créssida seja a personificação da falsidade e do interesse que supostamente reinaria no tempo do dramaturgo. A cada um dos outros personagens seria também atribuída a personificação de um “mal” da sociedade que Shakespeare queria retratar e repudiar e daí a manipulação de todas as idiossioncrazias dos heróis e deuses homéricos.


Síntese

Entre a Ilíada do poeta grego e a obra “Tróilo e Créssida” do dramaturgo inglês passam-se muitos séculos.

À Tragicomédia de Shakespeare muito se poderia acrescentar. Num resumo rápido, faltou dizer que Tróilo decide entrar na guerra de Tróia quando se sabe traído. Os amantes na obra ficam então em facções opostas quando Créssida se passa para o lado dos gregos. Nesta separação forçada e nos lados antagónicos em que se encontram, o casal Tróilo e Créssida. Muito há em comum com o também casal de Shakeapeare, Romeu e Julieta. Relativamente a Tróilo, poderemos, talvez traçar um paralelo com o seu irmão Páris, que combate por Helena, apesar dos motivos de um e de outro serem bem diferentes. Tróilo luta por vingança, Páris luta por uma conquista.

Nesta obra de shakespeare, os heróis homéricos reaparecem pintados com tintas perversas. O episódio da guerra de Tróia é “manipulado” para se transformar numa dura crítica jocosa ao reinado em que o autor vivia, servindo-se dos famosos nomes destes heróis. No exemplo estudado, o de Tersites, shakespeare dá-lhe características de “Bobo da Corte”, que diz as verdades numa linguagem indecorosa, retratando o clima de podridão em que todos estavam mergulhados

As influências da antiguidade greco-latina nas obras de shakespeare são uma constante. Shakespeare pertence à corrente renascentista inglesa. A aplicação dos princípios clássicos está-lhe, portanto, inerente. Autor de comédias, dramas históricos, tragédias e tragicomédias como Tróilo e Créssida, (infelizmente uma das suas obras que raramente aparece mencionada nos livros que o estudam) Shakespeare escrevia, segundo Dietrich Schwanitz, “libertando energias que irradiam um sentido puro”.

Foi reservado à Inglaterra o privilégio de “trazer” ao mundo O poeta. O maior autor dramático de todos os tempos. Inesgotável na sua inventividade, favorito de reis e público, autor de grandes sucessos comerciais e também fonte de inspiração para cineastas contemporâneos que levam até às telas adaptações das suas obras, assim como Homero.

Quanto à Ilíada, também muito ficou e ficará para sempre por dizer. Quando e onde foi composta, se por um só autor, chamado ou não Homero, se obra de improvisação oral ou se ditada por um escriba e se feita por quem já dominava o alfabeto são alguns dos “problemas” que constituem a chamada “Questão Homérica”. A tendência dominante é para reconhecer que estamos na presença de um plano suficientemente bem delineado para se poder aceitar a unidade da autoria. A obra chegou até nós dividida pelos Alexandrinos em 24 cantos. É a moral do heroísmo consagrado no sacrifício da própria vida que dá a nota principal da “Ilíada” e que, junto a uma arte de narrar incomparável, dá a este poema o lugar mais alto entre as epopeias.

Platão dizia na sua República que Homero foi o “educador da Grécia”. Com o exemplo dado neste trabalho e outros tantos que poderia citar, podemos, sem dúvida acrescentar a este pensamento de Platão que Homero foi também o educador de muitas das eras que se lhe seguiram.


Bibliografia

Grimmal, P., Dictionnaire de la Mithologie Grecque et Romaine, Paris, 1951 (trad. Port. Dicionário da Mitologia Grega e Roamana, Lisboa, Difel, 1992)

Homero, Ilíada. Trad. de Frederico Lourenço, Lisboa, Cotovia, 2005

Pereira, M. H. Rocha, Enciclopédia Luso-Brasileira, Vol. 14 e 15, Lisboa, Ed. Verbo, 2000

Schwanitz, Dietrich, Cultura, Lisboa, Dom Quixote, 2004


Shakespeare, William, Tróilo e Créssida, Trad. de Henrique Braga, Porto,

Lello & Irmão Editores,1988

Netografia

http://www.pessoasdoseculopassado.com.br/interna.asp?tid=1564&sid=5

http://www.templodeapolo.net

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilíada

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tróilo_e_Créssida



E Pronto. Para os que tiverem paciência para ler tudo e/ou para os interessados, sintam-se à vontade para criticar, comentar ou discordar.





quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mafalda Arnauth - Para Maria

Já aqui manifestei a minha predilecção pela música portuguesa em detrimento da estrangeirada que por aí abunda. (O que não quer dizer que não as haja de muito boa qualidade e que não as oiça.) Ultimamente "despertei" para duas músicas de dois dos novos grandes nomes do fado Mafalda Arnauth e Ana Moura.

Não resisto a publicar a letra delas. A nível harmónico e vocal são, quanto a mim, absolutamente irrepreensíveis. Esta então, meus amigos, deixa-me arrepiada, pelo seu alcance, profundidade e beleza. Ando extasiada, tanto que nem tenho mais palavras (o que pode ser uma virtude, por ser tão raro!)



Maria, Maria
Procuro por Ti
Trago este vazio
E o desejo de dar cor à minha vida
Quero pintar
Esta história que estou a criar
Quero ser mais
Minha grandeza afirmar
Ser poeta, ser cantor, ser o céu
Onde mora tudo o que eu vou ser
Se eu souber ser amor

Maria, Maria
Não sei que aconteceu
Se o mundo ou se fui eu
Enganou-se o amanhã sem piedade
Fecha-se a luz
Sobre as almas da minha idade
Esconde-se o céu
Onde eu quero ser mais verdade
Minha Senhora e minha Mãe
Olha bem por nós
Sem Teu amor
Ficaremos sós.

Maria, Maria
Mãe do silêncio
Mãe da humanidade
Em Teu seio o meu senhor se gerou
E Tu o contemplaste
Cheia de amor e ternura
Teu filho desejado
e por ti muito amado
Minha Senhora e minha Mãe
Ensina-me a amar
E arriscar
A saber ser maior

Ana Moura - O que foi que aconteceu

Outra música que me deixa extasiada é esta que se segue, na potente voz de Ana Moura. Vejamos a belíssima letra maravilhosamente escrita por Tozé Brito.


Aconteceu
Eu não estava à tua espera
E tu não me procuravas
Nem sabias quem eu era
Eu estava ali só porque tinha que estar
E tu chegaste porque tinhas que chegar
Olhei para ti
O mundo inteiro parou
Nesse instante a minha vida
A minha vida mudou
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos?
O que foi que aconteceu?
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos, meu amor?
O que foi que aconteceu?
Aconteceu
Chama-lhe sorte ou azar
Eu não estava à tua espera
E tu voltaste a passar
Nunca senti bater o meu coração
Como senti ao sentir a tua mão
Na tua boca o tempo voltou atrás
E se fui louca
Essa loucura
Essa loucura foi paz
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos?
O que foi que aconteceu?
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos, meu amor?

O que foi que aconteceu?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Tem que se falar

Assunto incontornável é o facto do Cristiano Ronaldo ter sido eleito o melhor do mundo, depois de ter arrebatado (dizem, que eu não percebo nada disso) todos os prémios que havia para arrebatar. Ora, o que é que eu, leiga no futebol como em tantos outros assuntos, tenho a dizer sobre isto? Muito pouca coisa, mas isso nunca impediu ninguém de mandar um ou outro "bitaite". Não posso deixar de dizer que sinto pena dele ter ganho este prémio porque sempre o achei um convencido de primeira, um arrogante insuportável e as suas atitudes para com os adeptos também não são as mais educadas. Quando abre a boca para falar não consegue juntar duas palavras seguidas com coerência, mas verdade seja dita, o trabalho dele é jogar futebol e isso ele faz melhor que ninguém. (Dizem, que eu não percebo nada disso). A sua devoção para com a família é bastante comovente e bonita de ser ver, não importa o que saia nesta ou noutra revista, sobre namoros e outras "escandaleiras". Se ele não namorar agora e aproveitar pra espatifar um ou outro Ferrari vai aproveitar quando? Eu faria o mesmo, mas com um bocadinho mais de humildade e educação, quem sabe. Como portuguesa não posso deixar de ficar contente porque mais uma vez Portugal é levado pelo mundo através do nome do Cristiano. Pena é que Portugal só deixe de ser uma província de Espanha, para os estrangeiros, quando se trata de futebol. Tenho de me capacitar que a época aurea de Portugal morreu algures no século XV ou XVI. (Dizem, que eu não percebo nada disso.)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

"O Canto do Vento nos Ciprestes"

Hoje, cheguei a casa e estava o meu pai a ouvir a rádio habitual no volume máximo. A primeira coisa que faço quando chego a casa é baixar aquela barulheira que põe qualquer um doente, mas hoje tive pena do rádio não ter mais volume para aumentar. Leram um poema que me deixou boqueaberta. Foi das coisas mais lindas que ouvi nos últimos tempos. Escrevi um ou outro verso do poema, para mais tarde pesquisar neste mundo que é a internet. E encontrei.




Mãe, eu quero ir-me embora

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira